Jornalismo Cidadão

Tal como o nome indica, o jornalismo cidadão é feito pelos cidadãos. Estes tornam-se jornalistas cidadãos em várias situações: Quando participam de uma notícia veiculada pelos média, deixando lá, por exemplo, os seus comentários – Jornalismo participativo. Quando criam conteúdos conjuntamente com outros cidadãos ou com os próprios meios de comunicação social – Jornalismo colaborativo. Quando alteram o conteúdo de qualquer página wiki – Jornalismo código aberto. Quando camadas inactivas e pouco participativas da população divulgam as suas próprias (com grande repercussão) – Jornalismo grassroots etc. Sempre que um cidadão deixa de receber a informação passivamente como se estivesse numa palestra, e passa a estabelecer um diálogo, em que intervém, comunica, participa, comenta, interage (...) está a ser um jornalista cidadão.
Mas será que este trabalho feito pelo cidadão pede ser designado por jornalismo? Que credenciais tem um cidadão comum para produzir qualquer conteúdo jornalístico? Até que ponto é benéfica para a sociedade esta nova prática?
Mas será que este trabalho feito pelo cidadão pede ser designado por jornalismo? Que credenciais tem um cidadão comum para produzir qualquer conteúdo jornalístico? Até que ponto é benéfica para a sociedade esta nova prática?
Até aqui o jornalismo era feito por jornalistas para a população. Agora, parte da população produz material informativo, para outros cidadãos e por vezes para os próprios meios de comunicação social. E é isto que caracteriza esta nova – e forte – tendência: a possibilidade de todo o cidadão ganhar voz. Tornar-se, para além de receptor, criador de informação. Uma infinidade de conteúdos já foi produzida sob os lemas “todo o cidadão é um repórter” e “faça você mesmo”, pressupostos do jornalismo cidadão.
Mas como se faz o jornalismo cidadão? Onde e como podem cidadãos isolados fazer circular os seus produtos? Como conseguiu a sociedade, esse corpo desorganizado, desestruturado e amorfo, desenvolver ferramentas que lhe permitem criar e divulgar informação? A resposta a todas estas perguntas reside numa única palavra: Internet. É na Internet que se está a operar a grande revolução comunicacional dos últimos anos. É lá que se encontra a esmagadora maioria dos jornalistas cidadãos, como : os publicadores, isto é, pessoas que têm páginas pessoais (blogs, flogs...) ou produzem podcats; os observadores, que pontualmente gravam, filmam ou fotografam acontecimentos imprevisíveis e depois dispõem e publicam esse material; os militantes, que defendem uma causa ou corrente com paixão e convicção, como acontece coma adeptos de futebol e defensores de um partido político; os comentadores, que se manifestam em páginas já existentes, comentando-as etc. Todas estas pessoas, e muitas mais, são jornalistas cidadãos, que actuam sobretudo na internet, progressivamente de todos e para todos. A Internet permitiu que a fórmula cidadão-repórter ganhasse dimensão, impulso e poder. Lá são oferecidas muitas possibilidades para quem quer ter o seu próprio veículo de comunicação, sendo os blogs a principal ferramenta da Web usada .
Os blogs (abreviação de weblogs) são páginas pessoais actualizadas regularmente por pessoas ou grupos e nas quais se pode publicar qualquer tipo de conteúdo, passível de ser comentado posteriormente. Foi este fenómeno universal dos weblogs que criou instrumentos para o usuário da Web ser capaz de publicar as suas informações e opiniões de forma fácil e imediata. Ao descentralizar verdadeiramente a produção, os blogs tornaram-se a ferramenta de comunicação por excelência dos cidadãos da era digital.Dada a popularização do fenómeno revolucionário dos blogs, foram surgindo especificações dentro da sua enorme diversidade, como é o caso dos flogs e dos vlogs. Os flogs são uma abreviação de fotoblogs, e tal como o nome deixa perceber, são blogs feitos com fotos. Têm beneficiado da vulgarização das câmaras digitais e dos telemóveis com câmara incorporada. Semelhantemente, os vlogs ou videoblogs são feitos com vídeos e têm evoluído exponencialmente devido à multiplicação dos suportes digitais. O e-mail, os fóruns (espaços de discussão online), os sites wiki (criados especialmente para serem escritos cooperativamente), como as wikinotícias (…) são outras formas de oferecer meios de expressão a quem não é profissional da comunicação.
O jornalismo cidadão é uma realidade da qual ninguém pode fugir, que marca a actualidade e promete preponderar ainda mais no futuro. É uma tendência que seguramente não se vai inverter e, provavelmente, nem mesmo sofrer retrocessos. É a era da comunicação de todos. Para um ou para muitos, mas de todos. Está irremediavelmente enraizado na sociedade, para o bem ou para o mal. Aliás, esta é uma das problemáticas que importa abordar. Até que ponto tomar a palavra no “jornalismo dos blogs” é benéfico? Não há consenso na resposta.
Os entusiastas do jornalismo cidadão encontram múltiplos “argumentos” favoráveis a este novo universo comunicacional. O primeiro de todos é a possiblidade de oposição à tirania dos mass media. Até aqui os jornalistas faziam o alinhamento, definiam o método, determinavam a ênfase. Os cidadãos, numa atitude forçosamente passiva, recebiam a informação sem possiblidade de responder, de reagir de interagir. Eram “obrigados” a consumir “aquela” informação, “naquela” hora, por “aquela” ordem hierárquica…
Nesta época revolucionária, o usuário (leitor, telespectador, ouvinte) deixa de apenas receber informação para ser também um produtor. Pode fazer o seu próprio alinhamento, definir o seu próprio método, enfatizar o que para si tem relevância. Os cidadãos, de uma maneira geral, tornam-se mais livres, mais independentes dos conteúdos dos média tradicionais. Aliás, o mundo está repleto de perspectivas diferentes, de pontos de interesse diferentes, de múltiplos dados …Há muitas maneiras de contar uma história ou de narrar um facto, e nem sempre os media tradicionais cobrem um acontecimento do modo que consideramos ser mais adequado. Deste modo, os cidadãos podem noticiar um acontecimento mediante a sua percepção do mesmo, e conhecer abordagens de outros cidadãos, não estando obrigatoriamente circunscritos à limitada exploração feita pelos média.
Há também muitos temas pelos quais os média não mostram interesse. Temas específicos que têm um público restrito normalmente não são abordados, ou porque não “vendem” ou porque outros assuntos se sobrepõem, ou…O que é certo, é que na blogosfera, todos os temas, por mais diminutos que sejam são abordados, satisfazendo um muito maior número de consumidores. Um dos méritos do jornalismo cidadão é precisamente este: a grande variedade que traz ao mundo das notícias. Ao revelar ângulos diferentes que os meios de comunicação tradicionais por si só não conseguem descrever, compreender e descobrir; ao abordar uma multiplicidade de temas; ao valorizar o ambiente colaborativo, em que várias pessoas acrescentam dados às notícias, trocam opiniões e dão consistência ao material; ao ter presente a noção de comunidade, de participação e de colaboração (…) o jornalismo cidadão contribui para uma visão mais diversificada e profunda dos acontecimentos.
Deste modo, é permitido ao cidadão comum criticar ou elogiar o trabalho realizado pelos média e/ou produzir os seus próprios conteúdos. A blogosfera (mundo dos blogs) veio alargar as possibilidades do exercício da cidadania, dando espaço e tempo de antena a todos e a cada um. As pessoas assumem o seu espaço na comunidade e exploram qualquer campo do conhecimento humano.
Um outro argumento favorável a esta nova prática relaciona-se com a crescente relação de cooperação que vem surgindo entre o jornalista e o jornalista cidadão. Aliás, cooperação é uma palavra-chave. Há cada vez mais um fluxo de comunicação bidireccional, em que os profissionais e a população se complementam. “O jornalismo é feito de parcerias válidas que salvaguardam o profissionalismo e aproveitam os "novos" actores da informação”. A frase de Manuel Pinto* deixa perceber que agora os profissionais da comunicação têm milhares de aliados na tarefa de apurar factos, conhecer novidades, reunir e comentar informações etc. Os atentados ao metro de Londres, bem como outros acontecimentos de repercussão mundial, são exemplos da importância do contributo dos cidadãos jornalistas para a obtenção de informações mais precisas e verosímeis. Todos os veículos tradicionais – televisões, rádios, jornais e revistas – usaram material produzido pelas testemunhas, que não eram jornalistas, mas que naquele momento eram detentoras de informação útil. Acrescenta-se à produção jornalística a contribuição de jornalistas cidadãos: Leigos que testemunharam factos importantes, estavam no lugar certo, na hora certa, muitas vezes com as ferramentas necessárias (câmaras, máquinas fotográficas etc.) e puderam cobrir um evento; ou especialistas que podem falar melhor sobre determinado assunto; ou simplesmente vozes que desejam manifestar-se, impor-se, mostrar desagrado ou entusiasmo relativamente a algo. Todos podem ser jornalistas cidadãos.
O modelo tradicional que distingue e isola os emissores dos receptores da informação dá, assim, lugar a uma comunicação feita por meio da colaboração. Como se pode constatar, o papel do cidadão excede, em larga escala, o de receptor passivo e inactivo. Muito de decisivo pode ser feito. Com os novos meios de comunicação é imperativo que cada vez mais os cidadãos se interessem pelo mundo - que também é seu - e contribuam para o enriquecimento das notícias. Quantas vezes os cidadãos vêm os erros sem os contestar? Quantas vezes não estão dispostos a aborrecerem-se, a protestar, a sugerir ou a aplaudir? Quantos e quantos nem sequer têm conhecimento dos seus direitos (e responsabilidades) perante a lei? A qualidade do jornalismo depende em grande medida da acção dos média. Mas depende em grau semelhante do procedimento do público, que cada vez mais é decisivo para melhorar a qualidade dos conteúdos.
Contudo, esta intervênção e participação dos cidadãos levanta algumas questões preocupantes. Será que esta designação de “jornalismo cidadão” não é redutora para o verdadeiro jornalismo? Que credenciais tem um cidadão comum para produzir qualquer conteúdo jornalístico? Estes cidadãos seguem quaisquer normas de conduta? As questões impõem-se....
O jornalismo cidadão não é um jornalismo cívico, aquele que se caracteriza pela cobertura jornalística dos média, tendo em vista o cidadão. Este é um “jornalismo” independente, autónomo...e consequentemente desregrado. Se cada um publica o que quer, sem procupações éticas, nem condicionamentos profissionais, não estarão o rigor e a veracidade das notícias comprometidos?
A maioria do jornalismo cidadão não visa prestar um serviço público, dar esclarecimentos sobre determinado tema, muito menos informar. Não é mais do que um conjunto de artigos de opinião, onde as pessoas, sem qualquer freio, podem manifestar a sua indignação ou entusiasmo relativamente a algo ou evidenciar um gosto pelo jornalismo que nunca se concretizou profissionalmente. E isto não é suficiente, nem válido. A blogosfera tornou-se numa espécie de psicólogo, que está ao nosso dispor, e no qual se “descarregam” todas as nossas emoções e opiniões, como nos aprouver. Ora, não é isto que é pretendido. É suposto acrescentar algo, enriquecer, dar consistência aos conteúdos, e não bombradeá-los com as nossas crenças e convicções que muitas vezes não estão correctas e/ou não interessam a ninguém.
O “produto jornalístico” produzido sem ética e sem técnica está irremediavelmente condenado à parcialidade, à não-verdade, à não-objectividade. Se as pessoas acharem que o seu clube foi prejudicado pela equipa de arbitragem, escrevem um texto em tom de indignação e publicam-no como forma de denunciar as injustiças e repor a verdade. Contudo, se o seu clube foi beneficiado, só muito dificilmente mencionam esse facto, sobretudo publicamente. Será isto jornalismo (cidadão)?! Ou, será antes um relato tendencioso e pessoal dos acontecimentos? Os blogs permitem que as pessoas tenham voz, mas, certamente, não as torna jornalistas!
No jornalismo cidadão estão latentes os testemunhos na primeira pessoa. Testemunhos esses repletos de emoção e de sentimentos, sem espaço para o rigor e objectividade. Como pode alguém dominado pela emoção fazer um relato fiel da realidade? Este jornalismo é feito partindo de testemunhos pessoais e não de dados e factos concretos. Este jornalismo não mostra os dois lados da mesma questão. Apenas o lado de quem está a produzir os conteúdos. Este jornalismo...simplesmente não é jornalismo!
E numa era onde todos têm a palavra não será difícil ouvirmo-nos uns aos outros? Não nos perderemos na infinidades de blogs opinativos? Não ficaremos confusos com tantos conteúdos? Não conduzirá este excesso de informação a uma desinformação? As respostas parecem ser óbvias.
Além de tudo isto, há outras problemáticas que surgem associadas a este tipo de exercício. A privacidade é uma delas. Num mundo em que todos (supostamente) podem ser repórteres, como é possível salvaguardar a nossa privacidade? Uma outra refere-se ao facto do jornalismo cidadão ser ainda de opinião e de crítica (feita sobretudo aos média), ou seja sem respeito por procedimentos básicos de profissionalismo. Como agravante, os seus conteúdos são absolutamente dependentes dos meios de comunicação tradicionais, que são criticados...
Bom, o que se conclui de toda a análise feita, é que a prática do jornalismo cidadão é parcialmente benéfica e maléfica. Ajuda de facto os média em diversas situações, mas em muitas outras prejudica-os e rivaliza com eles. É verdade que dá a conhecer um sem-número de perspectivas e temas diferentes, mas não é menos verdade que essa diversidade se torna (por vezes) confusa e excessiva. De facto todos podem falar, mas nem todos são ouvidos. A liberdade no relato, na análise e na disseminação de informação é certa, mas é certa também a escassez de rigor, verdade e ética. O jornalismo cidadão enriquece e empobrece simultaneamente a comunicação. Não se pode produzi-lo, nem abdicar de o produzir; não se pode consumi-lo, nem abdicar de o consumir; não se pode tê-lo, nem abdicar de o ter. O que eu quero dizer é que é mau ter o jornalismo cidadão que temos, mas seria não menos mau não ter nenhum.
O ideal seria fazer o jornalismo cidadão com MODERAÇÃO, tentando aproveitar o que de melhor ele pode acarretar e atenuar as suas lacunas. A resposta para esta questão tão urgente, quanto a mim passa pela convergência de dois dinamismos. É necessário que: Os profissionais façam o seu trabalho humilde e devidamente. Ao assegurar a qualidade do seu produto e ao não assumir uma atitude arrogante, os jornalistas evitam o descontentamento do público e a consequente produção autónoma, descomedida e de crítica. Além disso, o trabalho jornalístico não deve ser desenvolvido de forma autista. Pelo contrário devem haver espaços próprios para a participação dos cidadãos, já que estes não são, nem devem ser encarados como meras testemunhas. A sua intervenção deve de ser valorizada e a sua colaboração reconhecida. Por outro lado, é necessário que a atitude do cidadão também seja humilde. Estes não são os que "não sabem nada", mas também têm de ter consciência que não sabem tudo, e que muitas vezes não sabem mais do que os profissionais que estudaram o ofício. Devem mostrar-se participativos, interessados e colaborar de forma válida e útil. Devem explicar, mas também aprender.
Em suma, para que o jornalismo cidadão seja (mais) prestável e vantajoso é imprescindível que as duas partes envolvidas na comunicação (jornalistas e cidadãos) percebam o seu papel e o papel não menos válido da outra parte. Ambos têm muito mais a auferir se praticarem a tão ambicionada COOPERAÇÃO.
Referências Bibliográficas:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Jornalismo_cidad%C3%A3o
http://www.overmundo.com.br/_banco/produtos/1158005245_conquiste_a_rede_
jornalismo_cidadao.pdf

